Review: O protagonismo aplicado ao segundo plano em ACCA

O intermédio através de Jean Otus

Enquanto assistia ACCA, em nenhum momento pensei em redigir um texto sobre o anime, apesar de sua construção de personagens entregar um conteúdo pra uma ótima produção. Uma semana passada do fim do anime, repensei sobre essa decisão e por que não? Chega a ser desperdício não falar de algo tão engenhoso.

Antes de tudo, vamos nos localizar. ACCA: 13-ku Kansatsu-ka foi um anime que teve início em janeiro desse ano, produzido pelo estúdio MadHouse e dirigido por Shingo Natsume, diretor de coisa pouca, tipo One Punch Man e Space Dandy. A adaptação é do mangá de Natsume Ono, autora com uma arte bastante singular, podendo ser considerada até mesmo feia por alguns.

A versão em quadrinhos tem 6 volumes e foi serializada na Big Gangan. No anime, a arte de Ono foi transformada por Kugai Norifumi, artista com trabalhos tímidos, mas já relevantes, como uma participação na abertura de One Punch Man. A remodelagem de Norifumi tornou o character design bem mais polido que da obra original, mas não deixou desaparecer o brilho da autora original, principalmente nas características dos cabelos e ainda mais nos olhos, muitas vezes os maiores reveladores das intenções dentro de toda a conspiração política do anime.

Aproveitando o gancho, acho que não preciso me estender tanto mais em explicar sobre o que se trata ACCA: conspirações políticas, como citado acima. Os humildes 12 episódios funcionam para causar o suspense que se estende até a metade do décimo segundo. A andamento todo foi surpreendente, apesar do bom desfecho ter deixado a desejar em sua execução.

Antes de me aprofundar, é preciso fazer uma outra localização. A história ocorre em Dowa, um reino subdividido em 13 distritos que possuem características únicas. Cada um dos distritos possui certa independência do reino de Dowa, possuindo seus próprios governos que contribuem recursos entre si para o desenvolvimento da nação. Essa contribuição mútua, entretanto, pode ir de alta à nula, já nos revelando que existe uma discrepância de poder e influência. Esses pequenos estados, além da gestão política comum, são supervisionados pela ACCA, uma enorme organização que está presente em todo o país. Ela é comandada por cinco diretores que cuidam para que ela continue funcionando em toda sua abrangência, afinal, com o passar dos anos, ficou responsável pela absurda maioria da segurança de todo o território de Dowa, funcionando como um grande ministério responsável por todos os setores relacionados à defesa do país. Se pensarmos em termos de comparação, a ACCA no Brasil seria responsável pelo exército, pela polícia civil, federal, militar, sem falar da segurança em vias públicas, seja por estradas, seja por linhas férreas, seja por mar, etc. Enfim, o país acaba dependendo dela completamente. Essa dependência é importante, porque revela que a ACCA possui poder páreo até mesmo à própria família real, que comanda Dowa.

Como o anime trata sobre política, obviamente o grande brilho fica por parte não do universo criado, por mais que continue sendo de grande importância, mas sim pelos atores da trama e suas ações. Como há uma gama um pouco grande de personagens importantes, vamos separar uma seção para dissecá-los. Lembrando que a partir daqui poderá ter alguns spoilers da história. Tentarei dar uma amenizada, mas se não quiserem arriscar, podem pular para onde eu avisar no texto ou assistirem o anime e voltar depois.

Jean Otus:

Claro, começaremos pelo protagonista. Jean é um dos membros da ACCA. Ele é um dos supervisores da organização e mantém seu emprego na capital (apesar de fazer constantes pedidos de transferência). Jean e sua irmã Lotta são órfãos e acabaram herdando dos pais um prédio de apartamentos, permitindo-os ter um lugar luxuoso para viver. Jean, em certo momento, fica responsável por visitar todos os distritos antes da comemoração dos 100 anos de fundação da ACCA, com a responsabilidade de supervisionar e relatar qualquer problema fora da capital. Antes de começar sua viagem, ele acaba recebendo a missão de reportar de forma secreta qualquer informação sobre um possível golpe ao reino de Dowa. O irônico da situação é que Jean é um dos principais suspeitos de estar difundindo o golpe. Outra característica de importante citação é que Jean é um fumante compulsivo e a imagem do cigarro cumpre um grande papel na conspiração apresentada.

Nino:

O melhor amigo de Jean desde o ensino médio. Fotógrafo, Nino logo no início do anime mostra estar dentro de uma investigação armada por Grossular, no qual é revelado que o rapaz tem a missão de seguir em segredo os passos de Jean durante sua missão de supervisão. Nino é perfeito para o papel, principalmente por ele não ser uma visão suspeita para Otus, caso fosse descoberto. Nino tem um passado obscuro, que é revelado no surpreendente episódio 8 (recomendo o texto do blog Chá Com a Bruxa para quem quiser uma análise mais aprofundada do capítulo em específico; realmente vale a pena).

Lotta Otus:

Lotta é a irmã mais nova de Jean. Possui uma grande paixão por padarias, assim como o irmão. Ela também mantém uma forte amizade com Nino, sendo uma das grandes relações carinho/proteção dentro da história. Lotta, apesar de não ter grande presença, é uma personagem forte e que mantém uma tímida importância durante todo o anime.

Mauve:

Superintendente da ACCA, ela é a responsável pela missão de investigação do golpe dada à Jean. Uma das grandes presenças da obra, Mauve é inteligente e sabe em que pontos tocar para conseguir o que quer. Ela parece ter uma grande rede de contatos, que a faz acreditar que a grande figura do golpe não é Jean, mas sim uma figura dentro do grande escalão dos 5 Diretores da ACCA (o que é bem mais sensato, digamos).

Grossular:

Grossular é um dos cinco diretores. Ele parece ter já uma longa relação com Nino e é ele que o envia em uma missão para espionar Jean. Grossular apesar de ter fortes convicções, também consegue ser enigmático e manter uma expressão séria o tempo todo. Ele é um dos que acreditam que Jean tem grande importância por trás do golpe.

Lilium:

Lilium é outro dos cinco diretores. Sua feição misteriosa é sempre carregada de um sorriso quase sarcástico. Lilium mostra ser simpático com Jean desde o momento que o conhece e também parece estar sempre agindo por trás das cortinas. Além de tudo, ele é bastante influente também fora da ACCA, sendo o principal herdeiro da segunda família mais rica de Dowa.

Schwan:

O último personagem que destacarei é o príncipe de Dowa, sucessor oficial do trono do já quase falecido rei. Sua figura real não é querida pelo povo, tanto que é conhecido como “O Príncipe Idiota”. Ele também é mal visto aos olhos da ACCA, já que sua primeira promessa de “governo” é destituir a organização. Obviamente, o burburinho sobre o golpe partiu de afirmações como essa.

Ok, a partir daqui teremos spoilers sobre o enredo. Para os que insistiram em continuar, mas ainda não assistiram, recomendo fortemente em só voltarem a ler o texto depois que assistirem ou também pularem para onde eu colocar o aviso de segurança. Mesmo pra quem não se importa com revelações sobre a história, ainda recomendo não continuar, já que a graça de ACCA depende muito do mistério. Se você ainda assim quiser continuar lendo, vá por sua conta e risco.

Bom, não há muito o que analisar sobre o enredo de ACCA. Ele é bastante claro e objetivo no que se propõe. Todos os eventos envolvendo os personagens principais da trama são dedicados unicamente para a consciência sobre o golpe ser estabelecida, principalmente por parte de Jean.

Como todos que viram devem saber, toda a conspiração que está ocorrendo em Dowa foi montada pela ACCA, desde os boatos, até mesmo a armação do próprio golpe e sua reversão. Falando no golpe, é interessante pensar que o que seria aplicado funcionaria como um golpe militar, em tese. Contudo, pensamos no golpe pelo foco narrativo que temos até quase o final do enredo. A narrativa a todo momento nos leva a entender que Dowa estaria condenada se Schwan assumisse o trono e todos os avanços, principalmente em segurança, voltariam a nada. Logo, se seguirmos o enredo exposto ao público, o golpe militar seria a melhor escolha contra um rei tolo. É curioso pensar no golpe militar como algo funcional quando na história do mundo, com exemplo mesmo no Brasil, a ação militar dentro do governo é vista majoritariamente de forma negativa. ACCA nos ajuda a visualizar de perto uma situação que parece implorar por uma reforma extrema no sistema político e consegue, em certo momento, convencer usando argumentos que fazem parecer o golpe a única escolhe possível. Essa forma de convencimento também usada no mundo real, só que, claro, numa escala mais abrangente. Como a obra de ficção é um recorte da realidade, podemos ver com maior atenção os motivos que justificariam um golpe em prol da melhora, ou como em ACCA, da preservação da paz, do país, mas no fim das contas, descobrimos que existem segundas intenções, assim como também existem na realidade.

Grande prova das intenções acontece no momento que o espectador descobre que tudo não passa de uma conspiração do distrito de Furawau, terra natal de Lilium. Como representante da segunda família mais poderosa de Dowa, Lilium almeja ainda mais poder e para isso usa sua alta posição dentro da ACCA para tentar alcançar seus objetivos. Ele faz uso até mesmo de Grossular, personagem que revela ter uma índole admirável no fim das contas, sendo que em diversos trechos faz-se parecer que ele é um dos condutores do golpe ao reino. Toda a conspiração de Furawau é impedida pelos planos de Mauve no fim das contas, que se torna diretora única da ACCA e também graças ao tímido amadurecimento de Schwan, que enxerga a situação como algo maior e vê a necessidade da ACCA para proteger seu país, sem falar no confronto desnecessário que poderia acontecer.

No entanto, como devem saber, o importante para ACCA é como esse desfecho foi construído. Se tomarmos apenas pelo fim, a figura mais importante do anime, Jean, quase que não fez nada de maneira ativa. A função única de Jean no anime inteiro foi servir como intermediador para tudo. Jean primeiro era o recebedor de cigarros, o responsável por relacionar os apoiadores do golpe, sendo que ele, mesmo sem saber, era a grande figura dentro da representação do golpe. Jean depois descobre que tem sangue real e que pode ser sucessor do trono de Dowa. A partir desse momento, ele continua servindo de intermediador, com a única diferença que agora ele sabe no que está envolvido e porque é tão importante assim. Num terceiro momento, Jean parece estar disposto a seguir seu destino de ser rei e, por fim das contas, aplicar o golpe no seu primo Schwan. Nessa parte observamos que ele parece manter uma proximidade com Lilium, para nos fins das contas ser novamente intermédio para os planos da ACCA, só que dessa vez com o propósito de enganar o ambicioso diretor. No fim, Otus figurou misterioso até o fim, mesmo com tanta coisa revelada sobre o rapaz ao decorrer dos acontecimentos.

A construção de Jean é toda montada para ele ser apenas um observador e, como já dito, intermediador. Ele é protagonista porque a história toda perpassa por ele, mesmo que ele não seja necessariamente a pessoa de maior relevância ali. Ele ser protagonista também ajuda no suspense da narrativa, porque sempre espera-se algo da figura principal da história. Todos ansiavam ver alguma ação por parte dele, mas isso não ocorreu no plano principal da história em nenhum momento.

Se compararmos ACCA com um conto, a saga de Jean seria a história de fundo, algo que seria a grande sacada da história no finzinho. Imaginem ACCA narrado com Jean colocado como um personagem de apoio. No início da história ele seria enviado para supervisionar os distritos e no decorrer da narrativa faria apenas aparições esporádicas, para revelar apenas no fim que ele teria maior importância para o plot. No plano principal nós colocaríamos Mauve e Grossular, envolvidos de forma bem mais direta no vagaroso embate contra Lilium e conheceríamos o ponto de vista que ficou oculto no anime. No fim. Jean continuaria servindo de intermédio para uma causa maior, mas a grande protagonista de tudo poderia ser Mauve. O grande problema disso tudo é que o desfecho poderia se tornar óbvio, porque, dependendo da estrutura como um possível conto seria formado, seria mais fácil prever os planos da ACCA contra o golpe de Lilium e isso que foi a grande reviravolta do anime. Quando todos esperavam que o último episódio se basearia numa decisão de Jean, ela surpreendeu e mostrou ser todo um plano arquitetado pelo elenco de “apoio” usando Jean como instrumento. Claro que ele não deixa de ser uma peça-chave, mas sua relevância para o grande quadro não é tão grande quanto sua posição de protagonista o faz parecer.

Mas mudando um pouco o foco, se falamos de Jean, não tem como não falarmos de Nino. O homem de cabelos azuis com certeza é outra das figuras mais enigmáticas de ACCA até a revelação de seu passado. Nino dedicou sua vida ao “príncipe” e à “princesa” de Dowa, para seguir os passos do pai e a missão que lhe foi dada. Nino sacrificou toda uma história de vida para apoiar a família Otus até o fim, chegando até mesmo a levar um tiro no lugar de Jean. Ele, no entanto, não vê tudo que ele fez como um sacrifício, até porque no fim das contas ele vê Jean como um amigo, apesar da diferença de idade por anos disfarçada. Nino, para a grande trama, é totalmente um outsider se considerarmos o ponto de vista hipotético que citei anteriormente. Maior prova disso é que suas ligações com o reino que serve são quase que cortadas que completo. Dentro da própria ACCA, ele é um agente secreto que nem mesmo os membros comuns da organização sabem que ele faz parte. Se pensarmos pelo ponto de vista original da história, Nino é o grande personagem, até porque não é à toa que há um episódio só para contar seu passado. O episódio 8, que já citei, tem sem dúvidas uma das melhores direções de episódio desse ano, isso se não for a melhor. Ele torna ACCA ainda mais único por ser o grande ápice da história ao mesmo tempo que é “apenas” um flashback. O toque artístico mesclado com as memórias de Nino cuidadosamente sendo mostradas, iniciando pela determinação de continuar perto do pai, passando pela missão de observação, por fim mostrando a morte do pai no mesmo acidente que os pais de Jean e Lotta e fechando com uma transição que revela que tudo aquilo estava sendo narrado por um Nino com uma expressão calma, no entanto também dolorosa porque acabávamos de receber informações que revelavam seu sacrifício por um bem maior e que, mesmo que parecesse solitário, aquilo era tudo que ele possuía e a produção do anime fez questão de soubéssemos disso com o maior detalhamento possível.

— FIM DOS SPOILERS —

Jean e Nino são os dois maiores exemplos de que os protagonistas de uma história não precisam afetar diretamente o todo para que ela funcione, mesmo quando pareça ser necessário uma ação do personagem principal. ACCA coloca isso à prova de maneira condizente e aproveita para focar mais no desenvolvimento de personagens, movendo intenções, instigando a dúvida no telespectador para no fim criar uma atmosfera na qual você possa aplaudir todo o cuidado que a obra teve ao fazer nós se perguntarmos sobre o que tudo aquilo se tratava.

Na minha mais que humilde opinião, ACCA foi o melhor anime que teve nesse início de ano e olha que a concorrência não é pouca, já que tivemos também a segunda temporada de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, outra grande história. Como disse, o final foi bom, mesmo que mal executado, porém isso realmente não afetou tanto assim minha experiência com o anime, ainda mais porque não foi por nada que fiz esse texto todo só para falar da importância não do enredo em si, mas sim dos personagens da trama.

Enfim, quem ainda não assistiu, realmente recomendo que até que priorize. Acho que a sensação de suspense que o anime passa também deve funcionar mesmo em uma maratona. Quem, apesar de todos os avisos, leu o texto inteiro, a sensação ao assistir claramente não será mais a mesma, mesmo assim recomendo a experiência, até porque toda a parte técnica faz valer a pena independente de qualquer coisa e, claro, os personagens, que não vou focar porque esse texto já serve pra mostrar meu ponto.

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Att, Teke

 

4 comentários em “Review: O protagonismo aplicado ao segundo plano em ACCA

  1. Nossa, muito bom! Gekkou-san, sempre tive essa dúvida, onde vc adquire conhecimento sobre onde fulano de tal trabalhou e fez coisa tal? Tipo, no MAL tem informações mas só as mais relevantes, mas e essas informações menos relevantes? E outra coisa, eu gostaria de ter mais noção sobre animação, saber como funciona e o que faz uma animação ser “boa” ou “ruim”. Queria saber onde posso adquirir essas informações, pode ser em site gringo mesmo. Infelizmente de sites gringos só conheço o MAL, o animesnews e o anidb (lol). Grande abraço!!

    Curtido por 1 pessoa

    • haha dificilmente eu comento, mas quando comentava era acostumado a comentar sempre citando o Gekkou, foi por força do habito, malz Teke!

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    • Site gringo especializado na parte técnica de animações que é ótimo é o sakugabooru (https://sakugabooru.com/). Lá é o melhor lugar para conseguir informações do gênero, mas no próprio Anime News Network tem uma parte pra isso também.

      E tudo de boa sobre a confusão auhauha

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  2. Oi, sigo o site faz um tempo, mas comento pouco (desculpe). Uma coisa que adoro aqui é que temos opiniões bem parecidas, e principalmente, você(s) gostam de animes que não são só os modinhas, e também com conteúdo.
    Sobre ACCA, dessa temporada comecei vendo 3, mas ACCA foi o único que terminei, realmente o melhor anime da temporada. O Jean me deixou curiosa até o final, e mesmo vendo e ouvindo ele falar dos seus pensamentos, terminamos sem saber como ele realmente pensa. A MAdhouse fez um trabalho ótimo com esse anime, e o Nino me ganhou também, principalmente no episodio 8. Ótima resenha/critica por sinal. Realmente, histórias que seriam bem melhores sem os protagonistas que tem, e outras que como ACCA podem mudar o estilo dos animes. Seria bom ter mais animes assim…..

    Curtido por 1 pessoa

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