Review: A Construção da Depressão – A metáfora de 3-gatsu no Lion

A força da relação entre ficção e realidade.

Aviso: O texto está livre de spoilers, podem ler à vontade.

A depressão é uma condição psicológica que dificulta que a pessoa faça coisas que normalmente faria sem problemas e que também pode atrapalhar a capacidade de interação, sem falar de desejos suicidas e o próprio suicídio em casos extremos. A depressão pode aparecer de diversas maneiras. Pode acompanhar a pessoa por anos, inclusive desde de sua infância. Ela pode ser gerada por um gatilho ou por uma série de situações que afetem a pessoa a ponto que ela não suporta mais ou ainda por questões internalizadas do ser humano que não podem ser simplesmente negadas por algo como: “não há motivos para você estar assim!”. É com essa breve e não completa explicação que basearei uma também breve conversa sobre o que é Sangatsu (ou 3-gatsu) no Lion.

Sangatsu no Lion é um mangá de Chika Umino, autora também de Hachimitsu no Clover. Publicado desde 2007 na revista Young Animal e atualmente está com 12 volumes, Sangatsu, em outubro do ano passado, finalmente ganhou um anime pelo estúdio Shaft, o mesmo de títulos famosos como Madoka e Monogatari Series. É no anime que focarei a discussão.

Para não deixar alguém perdido, Sangatsu no Lion nos apresenta Kiriyama Rei, um jovem jogador de shogi considerado um prodígio dentro do jogo de tabuleiro. Rei perdeu seus pais logo criança e foi adotado por um ardoroso praticamente de shogi que o quis guiar para o caminho do sucesso. E assim Rei mostrou-se talentoso o suficiente para virar profissional já no ginásio (ou ensino fundamental, como preferirem).

Voltando ao texto em si, primeiro preciso confessar que não li sequer uma página do mangá por medo de não sentir a magia que senti ao assistir o anime. Não posso dizer se o Shaft foi fiel ou não, mas confiarei na boa fama para adaptações bem feitas que o estúdio tem e assumirei com confiança que o que viu-se foi uma adaptação maravilhosa e de longe uma das coisas mais bem feitas que vi em animes. A todo momento era possível sentir que a equipe foi carinhosa com cada frame, cada detalhezinho que tornou possível para o espectador imergir naquela história que se arrasta, se arrasta, mas que não perde a magia.

Aproveitando que toquei no arrastar da história, quero afirmar que isso não foi e com certeza na segunda temporada não continuará sendo algo ruim. Sangatsu trata sobre shogi, sim. Um… “esporte”, de certa forma, então tento imaginar que alguns estivessem imaginando algo aos moldes de Hikaru no Go ou coisa assim, mas ele não é uma obra desse tipo. Sangatsu é sobre superação, não a superação comum, porém sim uma superação que busca a famosa luz no fim do túnel. Uma superação dolorosa e árdua do protagonista Kiriyama Rei.

Indo direto ao ponto, Rei sofre com depressão. Isso nunca é citado diretamente no anime, mas há várias cenas que apontam para tal. As discussões existenciais de Rei sempre são relacionadas visualmente à algo que o prende. Na grande maioria das vezes essa representação é feita pela água, elemento bastante presente durante o anime inteiro, inclusive nas aberturas e encerramentos. Em diversos momentos o protagonista sente-se como se estivesse sufocado, como um afogamento do qual ele não consegue escapar por maior que seja seu esforço. Rei constantemente busca emergir, mas o que consegue no máximo são ofegações aceleradas e é novamente puxado ao seu infinito afogar. No entanto, cada respiração ofegante é uma melhora considerável para Kiriyama. A cada momento aconchegante na pequena e iluminada casa das irmãs Kawamoto ou em meio a constante extroversão de seu “rival e melhor amigo” Nikaidou, Rei respira e ter vontade de continuar. Sua luta contra a depressão é lenta, assim como é lento o ritmo do anime, assim como é lento também o shogi. São vitórias e derrotas que auxiliam o jovem protagonista a batalhar de frente com seja quem for o inimigo, mesmo que em sua maneira tímida, em todos os meios possíveis.

O shogi é uma outra grande representação no anime. Uma das coisas que achei mais interessante é o shogi por mais importante que seja, na verdade ele é “só” uma grande metáfora. O jogo, como citado, é uma das representações da batalha interna de Kiriyama. Os momentos dos jogos na grande maioria das vezes são silenciosos e não demonstra muito do depressivo subconsciente de Kiriyama, porém isso é porque tais pensamentos estão representados de forma metafórica no tabuleiro. No momento que o rapaz joga, sua mente está focada naquilo e ao mesmo tempo ele está lutando e encarando uma realidade, por mais que essa realidade esteja representada apenas num pequeno tabuleiro em que ele e outra pessoa estão dando tudo de si para vencer e seguir em frente. Essa batalha travada se estende por horas a fio, o que é bastante! Se formos colocar a escala de horas em um jogo de tabuleiro em comparação aos anos de vida, percebemos o quão importante é o shogi como representação metafórica ao mesmo tempo que é o instrumento de luta também não-metafórico de Kiriyama. A partir do shogi ele consegue ter o mínimo de socialização, consegue ter uma motivação e consegue ter motivos para continuar vivendo cada momento e buscar forças a partir daquilo. Rei nunca desistiu de resistir porque ele nunca desistiu do shogi. Em momentos que ele se sentiu pressionado em jogos, correspondeu posteriormente com momentos que ele pensou em desistir de seguir em frente, mas ele sempre foi até o fim no shogi e essa luta é o que ele tenta travar na vida, por mais que o esforço seja bem maior e que seja bem mais complicado lidar com sua própria humanidade.

Toda a luta, como é perceptível no anime, acaba sendo mais difícil do que o protagonista espera. O estado depressivo do personagem não deixa fácil. Kiriyama perde a vontade e, quando não está estudando shogi, passa a maior parte do tempo dormindo e comendo mal. A depressão também impede que Kiriyama seja aberto com os outros, o que torna difícil para o personagem firmar amizades da maneira convencional. Esses aspectos o acompanham desde a infância, especialmente depois da morte do pai biológico. Sua vida se torna dedicada ao shogi, mas em vários momentos isso é um fardo para Rei. O shogi, na mente do personagem, o impedia de estabelecer laços, o que felizmente é algo que ele aos poucos percebe que não é verdade, já que, como supracitado, o jogo na verdade é uma grande ajuda para sua vida. Através dele ele cria motivações para seguir seu caminho e também é no shogi que nos momentos mais desesperadores ele foge da sua quase-eterna solidão e encontra ali uma luz que o dá motivação para se esforçar por um objetivo em comum com vários outros personagens que seguem seu mesmo caminho. Ao abraçar essa causa é que Kiriyama pouco a pouco está consegue guiar seu caminho para uma considerável melhora.

O processo todo é feito de jeito de grandiosa sutileza. Claro que não é o tratamento realista para a doença, mas como é uma representação ficcional e ainda por cima uma que constantemente usa figuras de linguagem, é um trabalho muito bem feito. A aplicação da doença na obra é bastante verossímil com a realidade, mostrando com clareza o a vontade de lutar por algo, mas estar sempre com o sentimento que o afoga cada vez mais; a dificuldade também em se abrir para as pessoas e estabelecer relações sociais saudáveis; a constante ansiedade, que pode ou não estar atribuída à doença e, por fim, as próprias mudanças de humor de Kiriyama, que faz com que, mesmo após momentos bons, o sentimento que persista é que aquilo não é para sempre e que a dor de se sentir incapaz vai voltar uma hora ou outra. Essa abordagem junto à direção fantástica do anime é o que torna Sangatsu uma obra tão incrível e tão certeira ao tratar de um tema tão delicado.

A obra em nenhum momento romantiza a depressão e também não mostra uma construção “edgy” do personagem, como normalmente vemos por aí em diversas obras de ficção. Seu passado “traumático” é tratado de forma natural: é algo que perturba, contudo nunca guia ações irracionais por parte do protagonista. Ele quer seguir sua própria vida e se desvincilhar de tudo que há de ruim em meio aos seus pensamentos. Ele não se entrega à dor e a deixa tornar sua personalidade em um esteriótipo sombrio. Kiriyama é um personagem que está na transição desde o início da obra e isso que o faz diferente. Ele tem recaídas, ele sofre, mas não se entrega totalmente. Ele tem apoio e aos poucos, timidamente, também o busca.

Essa é a beleza de Sangatsu no Lion. Tudo o que observamos à nossa frente são páginas de um livro caprichosamente redigido e belamente narrado. Acompanhamos um personagem em sua vagarosa peleja em busca de um futuro no qual sua dor será dissipada e que ficará apenas para o aprendizado, tudo isso temperado por diversas pitadas de um caráter realista que não deixa de inserir brilhantemente aspectos cartunescos na obra, o que faz ela divertida, mesmo tendo como pano de fundo uma discussão tão séria quanto a depressão.

Sangatsu no Lion pode, sem dúvidas, ser considerado uma das melhores produções animadas já feitas. A profundidade e delicadeza que Chika Umino tem para construir seu protagonista combinado com a estupenda direção do anime torna (ou tornará) Sangatsu relembrado com o passar dos anos como um clássico, capaz de ser colocado em panteões de outras grandes obras da cultura pop.

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5 comentários em “Review: A Construção da Depressão – A metáfora de 3-gatsu no Lion

  1. Sangatsu entrou no meu top 10 de favoritos, é incrível o trabalho que a Shaft fez com ele, não acho que seria o mesmo ou equivalente se fosse por outro estúdio, tudo nele me agrada.
    O que mais me atraiu nele e essa foi a minha primeira impressão da obra é que o drama está ali presente, quase que como cenário, o tempo todo, mas ele não “força a barra” se é que me entende, ele não diz: “ei, olha só esse momento dramático, chore, se sinta mal por mim”. O drama é natural e sútil, sem extravagância, eu fiquei fascinado pela forma como a autora escreve isso.
    A galeria de personagens também é muito simpática, minhas cenas favoritas são sempre quando as 3 irmãs estão presentes, é um contraste claro, o Kiriyama sempre “frio” e elas sempre “quentes”, sei lá, até os personagens que poderiam simplesmente serem esquecidos ou ficarem de canto, tem seu backstory, tem sua simpatia e enriquecem a trama.
    Eu mal posso esperar pela próxima temporada dessa delicinha de anime, pra mim é 10 e não aceito críticas negativas em cima dele.

    Curtido por 1 pessoa

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