Resenha – Vidas ao Vento, último filme do diretor Hayao Miyazaki

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“O vento se ergue, devemos tentar viver.” (Cemitério Marinho, poema de Paul Valéry); citação que percorre a história de Vidas ao Vento.

Hayao Miyazaki despede-se como diretor produzindo um filme no qual ele o preenche com sua principal paixão, já constatada em seu histórico de animações: a aviação.

Como um dos indicados a categoria de melhor animação do Oscar 2014, Vidas ao Vento trata-se de uma biografia de Jiro Horikoshi, um designer aeronáutico que produziu aviões mais avançados durante a 2º Guerra Mundial. Como consequência, é uma narrativa mais realista e não há o mesmo teor fantástico de suas demais obras, a não ser nos sonhos de Jiro, onde se encontra com um construtor italiano chamado Giovanni Caproni que, por sua vez, cumpre o papel de um personagem motivador para Jiro concretizar seu sonho de produzir aviões, revelando-o na primeira vez em que se viram e quando Jiro ainda era um garoto, que a miopia de Jiro não era um obstáculo para o seu amor por aviões, que ele poderia não pilotá-los e sim produzi-los. Sendo assim, quem estiver esperando uma narrativa com toques de fantasia e significativos momentos de ação pode frustrar-se um pouco, o que não quer dizer que o filme não seja capaz de prender a atenção do espectador. E a trilha sonora de Joe Hirashi arremata a beleza da animação e provoca a sensibilidade nas cenas.

Miyazaki quis trazer um aprofundamento maior aos aviões, aproveitando o contexto do personagem e introduzindo cenas mais pormenorizadas que compreendem pelo menos uns 10 minutos de todo o filme, mas que são bem esparsas na narrativa e não cansam o espectador (supondo que esteja interessado no tema), além de pintar com mais exatidão a vida profissional de Jiro e o seu ambiente de trabalho. Para tornar a presença dos aviões ainda mais sensível, a sonoplastia se encarrega de ampliar o ruído dos motores, o giro das hélices e todos os demais sons participantes de uma máquina voadora.

Jiro

O talento de Jiro, no entanto, que seria voltado simplesmente para a concretização de aviões belos, logo foi direcionado para fins bélicos. Não poderia projetar uma máquina que fosse só bonita e potente, mas que fosse principalmente potente para matar, embora Jiro estivesse consciente desse fato, que fora elucidado nas visitas ao plano onírico numa conversa com Caproni. Jiro acaba sendo responsável pela criação dos Zeros, os aviões que futuramente iriam bombardear a base de Pearl Harbor. Trata-se da ambiciosa natureza humana tão presente em outras narrativas do diretor, além de uma mensagem pacifista que também é sua marca.

Para fazer um contraponto a toda essa tensão, há a parte romântica do filme protagonizada por Jiro e Naoko. Ele a conhece durante uma viagem de trem, quando “o vento se ergue” e um terremoto assola a região de Kanto. Embora tenha se criado a faísca romântica entre o casal, eles só haveriam de acendê-la ao se reencontrarem tempo depois, em um hotel aprazível numa montanha. O romance suaviza a trama, mas lhe dá um toque dramático quando Naoko revela sofrer de tuberculose e que não se casará com Jiro até estar totalmente curada, e assim permanecem afastados, Jiro atarefado com seu trabalho de engenheiro enquanto Naoko aguarda a sua recuperação. Embora seja uma personagem enferma, Miyazaki, como sempre o faz com suas personagens femininas, mostra alguém de forte personalidade, que não se permite ser passiva, e, consequentemente, sensibilizando e deslumbrando o espectador.

Jiro e Naoko

Vidas ao Vento é o filme de despedida do diretor. Não é o melhor, mas mantém a excelente qualidade de seu histórico. Embora o filme tenha chegado ao Brasil, foi lançado apenas em alguns cinemas do RJ e SP. Aqui no Rio está em cartaz apenas nos cinemas do grupo Estação (conhecido por passar “filmes alternativos”). Portanto, se vocês moram em algumas dessas cidades e curtem o trabalho do Miyazaki — ou se ainda não o conhecem e querem fazê-lo — não deixem de assistir.

Spoilers!

Gostaria de destacar apenas duas cenas que me marcaram neste filme.

A primeira é logo nos primeiros minutos, quando Jiro, dentro de seu sonho, sobe no telhado de casa, dá partida em um avião e começa a pilotá-lo sobre os campos, tudo isso acompanhado por uma música de fundo lenta e campestre. Então, certo momento, quando a câmera coloca-se de cima para baixo, meio inclinada, mostrando o avião e o verde lá embaixo, a música acelera ao mesmo tempo em que o sol ilumina ligeiramente os campos. Como o Miyazaki gosta muito de mostrar essa beleza de voar – e também da natureza –  (lembro-me de Porco Rosso), consegui absorver ali todo a sua sensibilidade relacionada a esse tema. É aquele tipo de cena em que a música e a animação se harmonizam para causar uma sensação sublime.

A segunda cena foi a hemorragia de Naoko, seu sangue jorrando por entre as mãos, que escondiam o rosto em desespero, e derramava-se sobre seu quadro de pintura. Pelo o que me recordo, foi a única cena com sangue na história inteira, o que lhe dá um caráter totalmente brutal e contrastante com o filme. Há cenas de abalo sísmico, incêndios, perseguição etc, mas nada tão explícito e desesperador (principalmente para Jiro) quanto esta cena. Confesso que quase rolou uma lágrima porque acabei encarnando a preocupação do personagem, e a história já havia arquitetado toda uma afeição pelo casal.

TRAILER NO BRASIL

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Por, Luiz Jaeger

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