Emergence e a técnica de criar bons personagens em ficção

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E se eu te contar um segredo sobre como me sinto e você lembrar que também se sente assim?

Os personagens são o núcleo de uma história, isto é, qualquer história. Quando um leitor gosta de uma série, um filme, um quadrinho, uma ficção, é pouco provável que ele goste graças ao enredo dos supracitados. Já pararam pra pensar por que gostam de seus animes/mangás favoritos? Você pode gostar de uma história, de um enredo, de um conceito daquela história; mas o que vai te fazer lembrar daquilo que tinha aquela história, aquele enredo, são os personagens. Por isso que, em qualquer mídia, uma história sempre será boa se tiver bons personagens.

E o que são bons personagens? Personagem que move o enredo, personagem que é justificado, personagem que age naturalmente, como uma pessoa real, pessoa que simpatiza com quem a observa – leitor –, personagem que tem ótimos motivos para ser odiado, personagens inteligentes, personagens diferentes, personagens inovadores, personagens revolucionários e personagens criativos. Existe aquela pergunta “O que é um bom vilão? Aquele que é muito odiado ou aquele que tem motivos nobres para a sua maldade?”

Por que não ambos?

Um vilão que tem motivos nobres para fazer o que faz e mesmo assim é digno de ser odiado por eles. Isso é perfeito. Ou um anti-vilão, que faz maldade por meios justos. O segredo de fazer bons personagens é sintetizar várias características ambivalentes e criar uma química que o personagem mais se aproxima do ser humano. E quanto mais humano for o personagem, quer dizer, mais parecido com as pessoas, com os leitores, como particularidades, defeitos, segredos, etc, melhor é. Mesmo assim, não é só as características distintas e interessantes que fazem de um personagem bom, é algo até mais simples.

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Em Emergence, ShindoL começa a narrativa em primeira pessoa, narrando a história de uma garota tímida. Geralmente livros em primeira pessoa são mais subjetivos – particularmente, acho mais poéticos – e mais fácil de ter empatia pelo narrador, pelo personagem. Se um escritor quer que os seus leitores recebam o carisma do personagem, esta é uma técnica quase infalível.

Graduação…

Eu… Saki Yoshida, após passar três anos no ginásio, graduei… sem fazer um único amigo… como eu fiz isso?

…A princípio, eu… fui convidada algumas vezes, mas… eu sempre tive medo e rejeitava todas as vezes… Tinha receio de alguém como eu me juntar a elas… e eu ser… desprezada…
Mas com o tempo eu me acostumei a ficar sozinha. Mal me dei conta…  no fundo no fundo, eu comecei a desdenhar as garotas da minha idade que saíam juntas… e então… quando percebi, eu passei a me odiar.

Eu quero mudar… Uma pessoa que faz parte desse… mundo divertido, de alegria… eu também quero fazer parte.

— Mãe… p-pode me ensinar… a maquiar?

Com poucas palavras, minha mãe, com quem eu não falava muito, ficou feliz.

Todo esse tempo, eu subestimava pessoas que eram obcecadas por sua aparência, mas depois que eu também cuidei um pouco da minha…

— V-você… você está linda… Saki…

— …Obrigada.

Eu fiz meu pai rígido me dar um sorriso embaraçado. Eu estava feliz.

Triste, mas empático, não? Tudo o que Saki quer é fazer parte deste mundo que ela vê como divertido e algere. Ela é uma garota nerd que não fez amigos no ginásio, tinha medo de ser rejeitada pelas amigas, e, depois de tanto ficar sozinha se adaptou a solidão. Quem nunca? Já neste início ShindoL conta a história da personagem que nos é relevante para o que vai acontecer mais a frente no enredo. Mas o que quero tratar aqui é do porquê simpatizamos com a personagem. Ressalto que não estou traduzindo os diálogos, só alguns que creio ter uma carga dramática para o que ela narra.

7 de Abril. Primeiro dia do Ensino Médio.

O dia finalmente chegou…

— Meu nome é Saki Yoshida. Gosto de… ler e jog—… quero dizer, fazer compras. É um prazer conhecer a todos.

Droga… eles estão sussurrando feito loucos… Será que notaram quem eu sou realmente? Que estou tentando agir como uma pessoa normal? Uuu… será que ferrei tudo? É impossível pra mim?

003Isso ela fala com o cabelo já cortado, a aparência mudada. O que me espanta é as falas que o autor utilizou pra tentar ir profundo na psique feminina, mas não tenho certeza se o que Saki sente é o que a maior parte das mulheres sentem na pré-adolescência e adolescência. De um jeito ou de outro, eu, como homem, já passei por que Saki passou e tive os mesmos pensamentos que ela, exceto alguns. O que me faz simpatizar com a personagem não é só isto, é por eu me importar e ter pena dela por sua vida triste, infeliz, e por ela ter um desejo nobre de apenas querer  fazer parte, ser diferente, mas não saber como.

É de querer não nascer mulher, de rejeitar essa vida de que, quem não muda e segue a norma, acaba se fudendo. Saber se maquiar, estar sempre acompanhada, ter amigos verdadeiros… Faz parar pra pensar e se colocar no lugar dela, como mulher. Empatia!

Em Watchmen, no livro fictício “Sob o Capuz” a escritora Denise revela a Hollis Mason que um livro tem que começar por conquistando a compaixão do leitor, e para tanto, precisa vir com a coisa mais triste que o autor põe no lápis. Ainda assim, não é o suficiente. Sentir pena de um personagem tem uma ligeira diferença de gostar de um personagem.

No conto Vísceras do Chuck Palaniuhk – autor de Clube da Luta –, o personagem narrador fala da vida dos seus amigos, como eles batem punheta, como ele bate punheta, e vem com uma nova maneira de bater punheta. Isto, senhores, é fazer gostar de um personagem.

Por quê? Porque você não vê um filme que um amigo seu gostou muito só pra aumentar sua relação com ele, pelo contrário. Se vocês dois, desconhecidos, no primeiro encontro revelam que viram o mesmo filme, e ambos gostaram muito, vocês têm uma boa relação, coisas em comum. Ter coisas em comum com o leitor é o cerne de fazer um bom personagem. Mas não são coisas simples. As pessoas são estranhas e depravadas, sujas e ignóbeis. E todos têm fetiches macabros iguais, que normalmente não expõem, e por isso ninguém sabe que aquele teu amigo fapou pra mesma garota que você uma vez fapou. Mas aconteceu, sentiu, pensou, e os únicos que podem expor esses segredos sem se sentirem julgados são os personagens de ficção.

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Em Emergence, Saki não falou coisas tão baixas como citei acima – embora sejam ótimos exemplo –, mas ela pensa algo que muitos pensam quando passam pela mesma situação. Você se sentiu igual a ela, você passou pelo mesmo problema e você entende mais a personagem. Agora, junte isso a história solitária, o seu desejo nobre, e as coisas em comum que ela passa que você já passou, você tem uma ótima personagem, perfeita aliás.

Não interessa como o enredo se desenvolverá; você já está preocupado com o que a personagem faz e o que acontece a ela.  Isto é técnica narrativa, e ShindoL acertou em cheio em revelar o segredo que todos têm mas ninguém revela. O mangá ainda vai além. Um cara tocou em elementos de feminismo analisando o hentai que de fato estão ali bem sutis no decorrer, como se o autor nem tivesse a intenção de pô-los. Meu texto é mais para analisar a técnica do que falar o que o autor quis passar com o mangá. E apesar de ser um hentai, vale dá uma conferida.

Bibliografia:  Escrevendo Ficção com Gotham Writer’s Workshop.

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Por, Kouma

8 comentários em “Emergence e a técnica de criar bons personagens em ficção

  1. Caramba, sabia que ja havia visto uma personagem parecida com esta em algum lugar…. fiquei martelando na mente e pensando: “pô, essa mina parece muito com daquele hentai!”. Levei um susto ao ver no final que era o mesmo hentai kkkk que coincidência, que mundo pequeno! E por manjar pouco de ingles nem tinha prestado muita atenção na historia, depois vo dar uma outra conferida com “outros propositos diferentes dos de quando vi pela primeira vez” ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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      • De fato, é como mulher bonita. Mulher bonita não conquista voce pela beleza, mas pela simpatia. A beleza é só um anzol, um gancho forte, para prender sua atenção. depois que ela prende sua atenção, ela faz o que quiser contigo — e voce continua achando ela bonita.

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  2. Concordo muito com a questão do personagem, você lembra de uma série ou obra e imediatamente lembra do protagonista. Particularmente o que me segura em uma série é o protagonista, mesmo em aquelas séries que a evolução da história demora, me interesso pela série pela curiosidade da evolução do indivíduo.

    Emergence, até hoje nunca tinha lido, conhecia o nome ShindoL, mas como seu estilo não é do meu gosto, lia o começo e parava. Entretando concordo que até certo ponto a protagonista Saki me despertou um interesse, isso porque também passei por algo similar, uma vez que mudei da época do fundamental para o médio. Mesmo que depois a história siga seu caminho no gênero ao qual foi escrito e perdi o interesse.

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  3. Ótimo Texto XD
    Concordo com tudo que vc escreveu.
    A história pode até ter um bom plot, um mundo legal de ser explorado e etc, mas o que faz de fato os leitores gostarem e lembrarem daquela obra, são os personagens.

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  4. “No conto Vísceras do Chuck Palaniuhk – autor de Clube da Luta –, o personagem narrador fala da vida dos seus amigos, como eles batem punheta, como ele bate punheta, e vem com uma nova maneira de bater punheta. Isto, senhores, é fazer gostar de um personagem.”
    Morri nessa parte kkkkkkkk

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  5. Concordo, certíssimo, histórias são sobre pessoas. às vezes tenho dificuldade para explicar para os meus amigos que curtem literatura que ficção científica não é sobre ciência, nem sobre tecnologias, nem sobre futuro. Todas as estórias do mundo, todas que já existiram, existem agora, e todas as que ainda vão existir, TODAS são sobre a mesma coisa : São sobre pessoas. Quem não gosta de gente não lê ficção; prefere ler livro de auto-ajuda, pra se sentir especial. Algo assim. Ou biografias de gente muito bem-sucedida.

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